Opinião
PÁSCOA É LIBERTAÇÃO por Adalberto Targino

Publicado em 28/03/2018 18:44 Atualizado em 29/03/2018 09:35

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Na Páscoa, a mais importante e maior festa da Cristandade, é celebrada a ressurreição de Jesus Cristo, depois do seu suplício, morte e assunção, mas para os judeus significa a libertação do cativeiro egípcio para as primícias da terra prometida, sendo considerada uma comemoração perpétua em honra de Deus (Êxodo 12.14).

Enquanto os judeus festejam em 8 dias a sua páscoa em nome de uma conquista ou vitória terrena-material da libertação da escravidão egípcia, os cristãos comemoram a vitória transcendental e metafísica da libertação da morte espiritual e do pecado. Ambas se referem à passagem, à mudança: a dos judeus foi a transposição do Mar Vermelho; a dos cristãos, a transmutação da morte espiritual para a vida eterna.

A Páscoa é o sustentáculo da fé cristã. Sem ela sucumbiria todo o seu arcabouço teológico-doutrinário, baseado na certeza da ressurreição de Cristo e que pelo batismo o crente sai da morte (descrença) para uma nova vida (ressurreição espiritual), a exemplo de Jesus, que ressuscitou dos mortos. Eis porque a páscoa é a maior e mais culminante base da fé cristã, na qual crêem cerca de 2 bilhões de seres humanos.

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Em contraponto à comilança de coelhos da páscoa e outras guloseimas contemporâneas, admoestava São Epifânio, séc. IV: “os seis dias da Páscoa transcorrem para todos à base de comer apenas pão, sal e água, ao entardecer”.

Já Santo Agostinho, séc. IV, um dos mais ilustres teólogos cristãos do mundo, afirmava “por isso, meus irmãos, se queremos celebrar uma Páscoa saudável, passemos dos pecados à justiça, padeçamos por Cristo, apascentemos nos pobres  a Cristo”.

Na esteira desse pensamento, Santo Atanásio prelecionava: “a Páscoa verdadeira é a abstinência do mal, exercício da virtude, e passo da morte à vida”.   

A ressurreição de Lázaro, por exemplo, simboliza o chamamento permanente da humanidade a sair da inércia espiritual (descrença, indiferença, omissão) para a vida em abundância, constituída pela força motriz suprema da fé, estado de paz profunda, nirvânica e santificadora.

A santidade ou ressurreição cristã independe dos nossos atos passados, da origem cultural, da prática de uma doutrina, de etnia ou tradição. Prova disso é que um ladrão e bandido como Dimas, condenado pela Justiça Romana em face dos seus inúmeros delitos, além de ser um pária da sociedade e sem histórico religioso, foi declarado santo (o primeiro da História) pelo Filho de Deus unicamente em razão de sua fé. Por que não os moralistas, religiosos e puritanos sacerdotes Caifás e Anás, que se julgavam guardiões e cumpridores da Lei de Deus? Não, porque eles tinham tudo, menos a fé.

A transformação interior faz do velho homem um novo homem, como na metamorfose da lagarta em borboleta. São dois momentos totalmente diferentes, perceptíveis pela mudança de comportamento e maneira de enxergar a vida.

Páscoa e Ressurreição se confundem porque ambas significam mudança, como no toque de Midas transformador do barro em ouro. Com efeito, do mesmo modo, as Trevas se transmutam em Luz.  

Precisamos da ressurreição que transforma a fraqueza do vício das drogas em sobriedade, a ganância que leva à corrupção em resignação, o desvio sexual da pedofilia à pureza, os sentimentos mesquinhos da inveja, da calúnia, da difamação, da intriga, da fofoca e do egoísmo em solidariedade, assim como os males  da depressão e do medo em serenidade e segurança.

A ressurreição verdadeiramente metafísica e transcendental constitui-se numa metamorfose intrínseca e espiritualmente norteada pelas palavras e exemplos de Jesus, o sublime Mestre e Salvador.

O homem renascido pela fé tem novo alento, força, energia, vigor espiritual. Todos podem continuar olhando o mundo superficialmente, mas ele, o transformado, vê o âmago, a essência, a profundidade.

A partir daí, o ressurreto espiritualmente troca a glutonice do ovo de chocolate pelo jejum da páscoa, o coelho comercial pelo Cordeiro libertador, que ,segundo a Bíblia, extirpa todo o mal (João 1.29).

Ademais, homem nenhum conseguirá a consciência “justa e perfeita” (santidade) senão pela fé. Todos, sem exceção, são infratores ou violadores da Palavra Sagrada. Sem a Graça presenteada pela confiança em Jesus e a vontade de acertar – mesmo errando – ninguém se libertará do jugo das fraquezas humanas, que são tentadoras e dominadoras. Até Cristo foi tentado, imagine nós, reles instrumentos das ambições e prazeres profanos.

Desse modo, esta é a época de reconciliação e perdão. O momento próprio à extirpação da violência, da fome, da corrupção e das injustiças; da expiação dos erros, superação das nossas dores e da passagem para uma nova vida. 

Afinal, sintetizo, com fulcro na Bíblia Sagrada (I Coríntios 5.7-8): “Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães não fermentados de pureza e verdade”.

* O autor Adalberto Targino

  Ex-Presidente da Academia de Letras Jurídicas do RN.


Postado por Redação

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